Rondon e a Escola Militar da Praia Vermelha
Rondon e a Escola Militar da Praia Vermelha

Hoje, o único caminho para o ingresso na Academia Militar das Agulhas Negras-AMAN, em Resende-RJ, que forma os oficiais combatentes do Exército Brasileiro, é a Escola Preparatória de Cadetes do Exército-EsPCEx, em Campinas-SP, onde o candidato ingressa, mediante concurso de admissão, para cursar o primeiro ano acadêmico.

Quando o jovem Cândido Mariano da Silva Rondon, saiu de Cuiabá, no Mato Grosso, em 1881, aos dezesseis anos, em busca do sonho de se tornar um oficial do nosso Exército, o caminho não era tão retilíneo assim, o que não quer dizer que hoje seja fácil, pois, atualmente, há milhares de candidatos para pouquíssimas vagas. Para Rondon, entretanto, havia muitas trilhas, percursos pedregosos, atalhos difíceis e estradas tortuosas a percorrer, metaforicamente falando.

À época, a conquista do oficialato, na linha combatente, passava obrigatoriamente pela Escola Militar do Brasil, conhecida como Escola Militar da Praia Vermelha, situada na Praia Vermelha, na cidade do Rio de Janeiro, extinta em 1904, e cuja singela edificação não mais existe desde 1935.

A Escola Militar da Praia Vermelha, na realidade, abarcava três cursos:

  • Curso Preparatório (três anos);
  • Curso de Formação (três anos): Infantaria, Cavalaria e Artilharia, ministrado a todos os cadetes, indistintamente;
  • Curso de Estado-Maior de 1a classe.

Funcionava, também, na Escola, o Curso de Engenharia Militar (dois anos), somente para os com pré-requisitos e já, também, oficiais formados pela Escola. A aprovação plena nos 3 anos do Curso de Formação dava o direito ao ingresso no Curso de Estado-Maior e no Curso de Engenharia Militar, com o recebimento do título de Bacharel em Matemática e Ciências Físicas e Naturais.

Terminando o curso de magistério (antigo normal) no Liceu Cuiabano, Rondon sentou praça como soldado no 3o Regimento de Artilharia (a cavalo), em Cuiabá.

Em 1881, requereu licença para tentar matrícula na Escola Militar, sendo transferido para o 2o Regimento de Artilharia (a cavalo), na cidade do Rio de Janeiro. Em 1883, sendo aprovado em concurso, foi admitido no Curso Preparatório, pois o seu curso de formação de professores, antigo curso normal, do Liceu Cuiabano, não fora reconhecido para ingresso no Curso de Formação, sem se submeter a provas e sem concluir o Curso Preparatório. Fez, então, o 1o ano e prestou exame vago dos 2o e 3o anos, logrando aprovação, feito esse nunca dantes ocorrido naquela Escola. Com isso, antecipou em 2 anos o seu ingresso no Curso de Formação.

screen-shot-2016-10-09-at-14-22-24Na Escola Militar da Praia Vermelha, o ensino acadêmico era privilegiado em detrimento ao ensino militar, centralizando-se na matemática superior, onde o grande mestre era o então major, promovido a tenente-coronel, em 1888, promoção esta ruidosamente festejada pelos alunos, que o adoravam, e, posteriormente, com a Proclamação da República, promovido a general, Benjamin Constant Botelho de Magalhães, futuro Ministro da Guerra do Marechal Deodoro da Fonseca, assistido em sua cadeira pelo então Capitão e futuro Marechal, Roberto Trompowsky Leitão de Almeida, mais tarde, consagrado como Patrono do Magistério do Exército.

A exagerada preparação científica acabou gerando a denominação de “Tabernáculo da Ciência” ao tradicional estabelecimento de ensino militar.

Em 1884, iniciava Rondon sua vida de cadete da Escola Militar da Praia Vermelha, concluindo, ao final, o 1o ano. Em junho de 1885, quando cursava o 2o ano, Rondon adoeceu, ficando em tratamento médico, baixado à enfermaria da Escola, de julho até dezembro. Em busca do tempo perdido, o aluno que quando sadio quase só tirava nota 10, via-se, então, com uma única alternativa: prestar todas as provas sem ter assistido à boa parte das aulas e sem o devido preparo. Logrou êxito em todas, mas não em Química, pois desfaleceu na hora da prova, deixando de realizá-la. Em 1886, sem outra alternativa, cursou, então, novamente, o 2o ano.

Os alunos da Escola tinham a graduação de soldado, com vencimentos equivalentes. Os mais brilhantes intelectualmente, no entanto, buscavam o título de alferes-aluno, equivalente ao posto atualmente denominado aspirante-a-oficial, instituído em 1905, que era dado como prêmio aos que no 1o e 2o anos tivessem aprovação plena em todas as disciplinas. Outra norma em vigor determinava que somente poderiam seguir o Curso de Engenharia Militar, após o 3o ano, os alunos que não tivessem nenhuma aprovação simples em seu currículo. Além do “status”, ser alferes-aluno significava um aumento substancial nos vencimentos.

Pelo seu desempenho, Rondon obteve esse posto em 4 de julho de 1888, que lhe foi atribuído quando já tinha os cursos de Infantaria, Cavalaria, Artilharia e quase o de Estado-Maior de 1a classe, como simples Soldado-Aluno, curso este concluído nesse mesmo ano.

screen-shot-2016-10-09-at-14-22-10Ainda em 1888, foi criada a Escola Superior de Guerra, ficando na Praia Vermelha somente os alunos-cadetes. Rondon e os demais oficiais-alunos foram transferidos para a nova Escola, com sede no antigo edifício do Arquivo Militar.

Ao final de 1889, graduou-se engenheiro militar e recebeu o diploma de Bacharel em Matemática e Ciências Físicas e Naturais.

No dia 8 de janeiro de 1890, 55 dias depois da Proclamação da República, Rondon foi desligado da Escola Superior de Guerra, sendo promovido a 2o tenente de artilharia, permanecendo no posto por 3 dias, uma vez que todos que tomaram parte no “15 de Novembro” (Rondon participara sob o comando de Benjamin Constant) foram promovidos ao posto imediatamente superior. O Professor Benjamin Constant, mesmo contra sua vontade, foi promovido de tenente-coronel a general-de-brigada, ocupando até hoje a vaga no 7 dos generais-de-brigada combatentes, no Almanaque do Exército. Rondon foi promovido a 1o Tenente de Estado-Maior de 1a classe. Deodoro, o Proclamador da República, recebeu o título de Generalíssimo.

Em 6 de março de 1890, nomeado para a Comissão Construtora da Linha Telegráfica de Cuiabá, o 1o Tenente Cândido Mariano da Silva Rondon partiu para aquela cidade, no Mato Grosso, onde iniciara sua vida militar, na trilha da saga que o destacaria e o inseriria na gloriosa história do Exército Brasileiro e do Brasil!

FONTE: Histórias Militares – Márcio Herdade

1 Comentário
  • by França Postado 13/10/2016 00:07

    salve a A-10, valeu Agnew, o tempo voa sem perdão.

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